Momentos
Paul Eluard, Derniers poèmes d’amour - La nuit n’est jamais complète
La nuit n’est jamais complète.
Il y a toujours puisque je le dis
Puisque je l’affirme
Au bout du chagrin
Une fenêtre ouverte
Une fenêtre éclairée.
Il y a toujours un rêve qui veille
Désir à combler ou à satisfaire
Un coeur généreux
Une main tendue
une main ouverte
Des yeux attentifs
Une vie, la vie à se partager.
Há sempre – eu o digo,
Eu o afirmo –
No fim do sofrimento,
Uma janela iluminada
Há sempre um sonho que vela
Desejo a preencher ou a saciar
Um coração generoso
Uma mão estendida,
Olhos atentos
Uma vida a partilhar.
O canto lá de fora
Alguém canta e recanta lá fora. É um canto de quem chora, de quem veio embora, de quem está fora de hora. É um canto agreste que gruda na alma feito cipreste. É um canto ou um lamento o que ecoa da boca do vento? É um canto cheirando a bebida. Sim, é um canto bêbado por natureza, embriagado de ilusão, que em seus primeiros passos, ou notas, tropeça em fantasias. Dá a impressão que vai desafinar a qualquer momento, atravessar o ritmo, subtonar o tom, mas segue próximo à perfeição. Às vezes atrás, outras à frente.
É o canto de um pássaro sem ninho, de uma planta sem vaso, de um coração sem peito. É o canto de fome, de dor, de perda, de chuva. É um canto capaz de acender ou apagar velas. É um canto que aparentemente perdeu o rumo de casa, mas que bate na porta certa. É um canto enérgico, cheio de si. É um canto feito de improvisos e mensagens subliminares. É um canto seresteiro, um canto andarilho, um canto que roda, roda, roda e cai no mesmo estribilho. É um canto-poesia que eu queria ter cantado um dia.
É um canto que provoca o demônio, que mexe com os anjos. É um canto feito de gorjeios e sonhos alheios. É um canto que mesmo quando cala, canta. É um canto liberto de gaiolas e palcos. É um canto que aperta e que acalanta, que nos tira e nos dá uma série de sensações, que arrepia e nos coloca na cama, para dormir ou provar que ama. É um canto sem falsidade, um canto que invade o íntimo do íntimo do íntimo. Um canto de autoridade, entregue à própria sensibilidade. É um canto que de tão bonito chora de quebranto.
Daniel Campos




Uma delicia ter-te!…
Beijos,
AL